A dor como que se lhe assalta
No cabo de toda sorte, a crudel malta
Renova-se, plena, rija, excruciante
criadora cabal do sentir sobrante.
Amor? Ah, o amor no intimo residente
Também como toda esta dor fundante
E que ainda, de tão casta, já se esvai
Sem do peito, ao olvido, lançar um aí.
Disse-o Anacreonte: só quem amou pode saber
O que é a saudade, uma dor assim sem termo.
Pois quando o ser amado já não lhe vier
Nem na noite, nem na aurora, então o ermo
Caber-lhe-á como desterro, - a própria dor.
E o infeliz torna-se ao limbo sem amor.
Ricardo Reis
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