quinta-feira, 15 de março de 2012

DOR DE AMOR

A dor como que se lhe assalta
No cabo de toda sorte, a crudel malta
Renova-se, plena, rija, excruciante
criadora cabal do sentir sobrante.

Amor? Ah, o amor no intimo residente
Também como toda esta dor fundante
E que ainda, de tão casta, já se esvai
Sem do peito, ao olvido, lançar um aí.

Disse-o Anacreonte: só quem amou pode saber
O que é a saudade, uma dor assim sem termo.
Pois quando o ser amado já não lhe vier
Nem na noite, nem na aurora, então o ermo
Caber-lhe-á como desterro, - a própria dor.
E o infeliz torna-se ao limbo sem amor.

Ricardo Reis

ALFOMBRA

Em ruas largas
nas praças, ao vento
onde mais houver em que se joguem

perdidas palavras.

Que se as escutem nos gritos
nas feiras livres, nas trovas
onde ao sol urdam-se
versos e sombras.

Em meio a arvores urbanas
como os Fícus e os Oitis
sob o refúgio das Amendoeiras
vão-se os fonemas tecendo alfombras.

Ricardo Reis

A LÍRICA

a forma nua da conformação poética
a pura forma, acadêmica
e um tema lírico
ou mesmo não
para hodierna emoção.

algo assim contemporâneo
como viajar à lua
para se ir além da aurora.

romper o simbólico da madrugada
na expiação da noite de intifada
o fato que a tarde veio anunciar.

em miséria, o reciclante resto
do momento, o retrato e e as mãos lívidas
contaminadas de modelar culpa e gesto.

Ricardo Reis